
Nascido em Araxá, Minas Gerais, em 1945, Evandro Affonso Ferreira iniciou sua jornada profissional precocemente, trabalhando na sapataria de seu pai aos dez anos. Em 1959, mudou-se para Brasília e, em 1963, radicou-se em São Paulo com a família, onde atuou como bancário até 1978. Posteriormente, dedicou-se à redação publicitária, imergindo na boemia paulistana e estabelecendo contato com o meio artístico e literário. Após sofrer um infarto em 1990, decidiu abandonar a publicidade para se dedicar exclusivamente à literatura. Entre 1991 e 2002, e novamente entre 2005 e 2008, foi livreiro, gerenciando os sebos Sagarana e Avalovara com seu vasto acervo pessoal. Sua estreia na literatura ocorreu com a coletânea de humor 'Bombons Recheados de Cicuta' em 1996, obra que posteriormente renegou. A partir dos anos 2000, seu trabalho ganhou notável destaque, com livros que exploram a sonoridade da língua portuguesa e suas interseções com o tupi-guarani e o iorubá. Críticos como Millôr Fernandes o apelidaram de 'o vivificador das palavras', reconhecendo seu rigor artesanal e a capacidade de extrair pedras de toque filosóficas da linguagem.
A trajetória literária de Evandro Affonso Ferreira é marcada por uma profunda experimentação com a linguagem e o estilo. Sua prosa se caracteriza pela oralidade, uma pontuação pessoal e o uso de palavras raras e neologismos, resultando em um ritmo que se aproxima da prosa poética. Ele trabalha a linguagem como um arranjador musical, buscando extrair dela insights filosóficos e abordando a caosmose do mundo de forma musicalmente organizada em suas frases e palavras. O autor divide sua produção em duas fases distintas: uma inicial, onde a preocupação principal era com a 'vida da palavra', e uma fase posterior, a partir do romance 'Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus', focada na 'morte do homem'. Essa mudança reflete uma guinada para temas mais existenciais e sombrios, como solidão, loucura, decrepitude e finitude, sem abrir mão de sua inventividade linguística. Sua obra frequentemente apresenta narradores em monólogos ou diálogos internos, imersos em devaneios e reflexões profundas sobre a condição humana.

“Vencedor do Prêmio APCA de Melhor Romance em 2010, este livro inicia uma nova fase na obra do autor. Nele, um narrador com quase 80 anos, à mesa de uma confeitaria em um shopping, reflete sobre sua vida e a proximidade da morte. O fio condutor da trama é a memória do suicídio de sua mãe, uma artista fracassada, bêbada e instável, com quem ele mantinha um laço profundo. O protagonista, em seu estado decrépito, conversa telepaticamente com os frequentadores do local e encontra na escrita a justificativa para sua existência melancólica. É o primeiro volume de uma trilogia que explora temas como a finitude e a memória.”

“Este romance, ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2013, apresenta a história de um homem culto e profundo conhecedor da obra de Erasmo de Rotterdam. Após ser abandonado por sua amada, ele perde a sanidade e se transforma em um morador de rua. A narrativa é construída em um fluxo de consciência contínuo, sem parágrafos, e aborda de forma 'niilista-lírica' temas como solidão, loucura, decrepitude e morte. O mendigo vaga pelas ruas de uma metrópole, buscando 'coincidências poéticas' e revivendo momentos de intimidade afetiva e intelectual com a mulher que o deixou.”